Chico Bento na terra do Tio Sam

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Imagem Refletida

O que você vê quando olha no espelho?

Imagem Refletida

Nossos discursos são invejáveis
Mas nossas vozes, inaudíveis
Nossas casas são fortalezas
Mas nossos lares, prisões
Nossos carros são importados
Mas onde será que nos levam?

Amamos o dinheiro
Mas nunca nos fartamos
Corremos atrás do vento
Mas nunca o alcançamos
Nada disso faz sentido
Nosso fim é sempre o mesmo

Somos uma imagem refletida
Quem se vê quando vemos
Através do espelho?
Somos uma imagem invertida

Imagem refletida
Imagem invertida
Atos irrefletidos
Valores invertidos

Nossos intelectos são exemplares
Mas nossos egos, irracionais
Nossa sociedade é democrática
Mas nossa democracia é cega
Nossos bosques têm mais vida
Mas nossas vidas, sem amor

Esse é o teatro de lunáticos
Que nós representamos
Nada muda, nada mudou
Quem estamos enganando?
Vaidade de vaidades
São tudo vaidades

Somos uma imagem repetida
Quem é que se esconde por trás
Dessas máscaras forjadas?
Somos uma imagem distorcida

Imagem repetida
Imagem distorcida
Erros repetidos
Verdades distorcidas

Até quando seremos
Essa imagem invertida?
Imagem distorcida, repetida

Enquanto não formos capazes
De quebrar nossas máscaras
Seremos sempre uma imagem refletida

Imagem refletida
Imagem repetida
Imagem invertida
Imagem distorcida

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Vôo 1774

Ele já sabia que ia ter que esperar bastante, por isso foi à livraria do aeroporto folhear de graça alguns livros que lhe parecessem interessantes. “É melhor comprar um”. Comprou. É verdade que não gostava nem um pouco de esperar, mas aqueles momentos de solidão eram, sem dúvida, uma boa oportunidade para refletir.

E refletiu muito sobre o que tinha feito da vida até aquele momento, sobre o que tinha alcançado, realizado, desistido. Como sua vida tinha mudado nos últimos três anos! E estava prestes a mudar de novo, o que trazia inegavelmente um certo desconforto. Na verdade a palavra mais adequada era medo. Tinha medo de mudanças, assim como o diabo da cruz. Mas aquela reviravolta toda o fez matutar se a vida não seria, de fato, feita mais de mudanças do que de rotinas. É verdade. Não há por que se preocupar agora. Não é saudável se apegar demais às coisas do passado. Tudo o que ele viveu até aquele momento ajudaram-no a conhecer um pouco mais de si mesmo. Além do mais...

Foi interrompido pela chamada do alto-falante que o convocava a embarcar no seu vôo. Ao procurar sua poltrona, viu que era no corredor. “Tanto faz”, pensou consigo mesmo. A única coisa que queria era sair do avião assim que aterrissasse. Já não tinha mais o encanto da primeira vez em que ele subiu naquela máquina voadora. Lembrava-se muito bem de como ficou colado na janela observando os imensos flocos de algodão flutuantes. Quisera até mesmo esticar um pouco o braço e levar consigo um pedaço daquele colchão alvo que se estendia até onde a vista alcançava. Lembrava-se também da vista do Farol da Barra aparecendo por entre as nuvens. Se emocionou. Naquele domingo chuvoso, parecia que o céu se abrira exclusivamente para receber o filho da terra que voltava ao lar.

Mas agora já não havia mais esse encanto. Suas viagens tinham se tornado tão corriqueiras quanto passeios de bicicleta. Nem prestava mais atenção nas nuvens, tampouco no Farol da Barra. A única coisa que queria era sair do avião assim que aterrissasse. E assim o fez.