Dezembro
São mais de 300 dias debaixo da opressão
Medo da guerra, da bala perdida, medo do medo da solidão,
Eu vejo os shoppings lotados, ruas lotadas,
Avenidas decoradas por corações vazios...
(Uma noite de paz – Fruto Sagrado)
Is this the New Year, or just another night?
Is this the new fear, or just another fright?
Is this the new tear, or just another desperation?
(The Blues – Switchfoot)
Sinceramente, não consigo entender de onde vem essa melancolia característica do mês de dezembro. Fim de ano, todo mundo viaja, muita gente espera ansiosamente por essa época. Mas eu sinto calafrios só de ver aquela decoração de luzes coloridas e laços vermelhos. Acho que é porque os festejos usualmente só me trazem dor de cabeça: meu pai planeja uma coisa, minha mãe quer outra, e sempre dá briga. E eu assisto de camarote. Se dependesse de mim, o calendário só iria até o mês 11. Assim a gente pulava direto de novembro pra janeiro...
Mas acho que o problema não é só esse não. É algo mais. É porque eu não entendo essa empolgação das pessoas, toda essa “mágica” criada em torno das festas de fim de ano. Por que será que as pessoas aguardam tanto uma data cujo significado ninguém entende de verdade? Por que nos reunimos em um farto banquete todo ano? E o que ele simboliza afinal? E por que todo mundo tem que ficar bonzinho e amar uns aos outros e fazer caridades e dizer coisas bonitas só no Natal, enquanto no resto do ano é tudo diferente? É o “espírito natalino” pré-fabricado pela Rede Globo, pra vender sua programação de fim de ano.
No réveillon a hipocrisia continua. Não preciso esperar o dia 31 pra prever o que vai acontecer. Vai ser exatamente como nos últimos 20 anos. Família reunida, um monte de gente vestida de branco (qual é a neura com esse negócio de vestir branco?), os tios fazendo sempre as mesmas perguntas retóricas, porque não têm o que falar mesmo: “Chegou que dia?”, “Como tá a faculdade?”, “E a mulherada?” e sem dúvida a minha favorita: “Rapaiz, cê tá gordo hein?”. É incrível como, aos olhos dos meus tios, eu sempre estou mais gordo do que no encontro anterior. Seguindo essa contabilidade, estarei atingindo os 300kg em breve.
Mas continuando a descrição da cena, saltemos adiante para a hora da “grande virada”. Meia-noite todos se abraçam e choram. Não sei de onde vem tanta lágrima. Tento chorar também, mas não consigo. Talvez eu seja insensível. Ou talvez, seja um dos poucos naquele lugar que percebem que o ano-novo não tem nada de tão novo assim. Só o que muda é um algarismo. Em vez de 6, um 7. Mas o resto continua igual: as guerras, a fome, o mensalão, a Rede Globo e até mesmo os tios que, no ano que vem, dirão que eu estou um pouquinho mais gordo.
Não sou contra o Natal, ao contrário. Vamos celebrar o Natal, mas que seja todos os dias, com um sorriso, com um beijo, com um tapa nas costas do amigo. Celebremos o Natal falando de Jesus, do seu nascimento, ou ainda da sua morte e principalmente do seu amor pela humanidade, que o levou a sofrer tudo o que sofreu. Façamos isso todos os dias, não precisa esperar um ano inteiro.
Também não sou contra a festa de ano-novo. Você pode festejar o ano-novo, desde que não se esqueça de festejar também o mês-novo, a semana-nova e o dia-novo. Isso mesmo! Cada vez que o sol nasce, traz consigo um dia totalmente novo, com possibilidades inéditas, então não deixe ele passar despercebido. Não espere 365 dias para fazer promessas que serão esquecidas depois de algumas horas regadas a champanhe. “Eu vou parar de fumar”, “Vou estudar mais esse ano”. Não seja tão covarde. Faça o que tem que ser feito agora mesmo. Não espere até o mês de dezembro. Porque dezembro é só mais um mês como qualquer outro.
